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quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Escola na Aldeia: do nosso jeito
Nos últimos 50 anos
desencadeou-se um importante processo de descolonização da educação escolar
indígena, em todo o continente. Das precárias e simples escolas de palha em
aldeias, ou mesmo ao céu aberto ou debaixo de árvores, foi se forjando um movimento
de construção de escolas transformadoras, de formação de guerreiros na luta
pelos seus direitos, especialmente seus territórios, recursos naturais, modos
de ser e projetos de vida. Começa a nascer a “escola própria de cada povo, “do
nosso jeito”. Os direitos foram garantidos em inúmeras leis, infelizmente não
cumpridas, pois os estados nacionais se forjaram na contramão da diversidade,
ou seja, quando mais homogêneos mais fortes. Dessa forma passaram a se
transformar em maquinas de triturar a enorme diversidade de quase mil povos
originários na Ameríndia, continente americano.
Depois de meio século de
lentas mudanças, as escolas indígenas continuam esbarrando nas burocracias
estatais, nos preconceitos raciais, nas políticas homogeneizantes, na prepotência
dos colonizadores, invasores de seus territórios e negadores dos projetos
próprios de vida de cada povo.
Foi gratificante e
animador ouvir a experiência do povo Shuar, da Amazônia equatoriana. Santiago Utitiaj relatou como foram se
construindo as escolas comunitárias no Equador. Ressaltou “as dificuldades que
enfrentaram e continuam existindo a partir da decisão política das comunidades
de terem suas escolas e educação próprias”. Esse processo começou em 1940.
Porém só na Constituição de 2008 , dentro do marco do Estado
Plurinacional, se reconheceu o modelo intercultural bilíngue.
“Temos muitos direitos
garantidos em nossas constituições e legislação internacional. Precisamos
conhecê-los para exigi-los, especialmente os direitos coletivos, como a
“educação própria”, desenvolvida nas comunidades, afirma Santiago.
Lamenta que o sistema educativo dominado pelo estado não permita o
desenvolvimento da “educação própria": "O estado não a reconhece. Alegam
o medo dos fantasmas de separatismo, de reivindicação de independência".
Santiago conclui dizendo
“Apenas queremos que respeitem a nossa existência num Estado Plurinacional e
Intercultural”. E esse processo de mudanças profundas de ser feito por nós
indígenas ou não será feito por ninguém, pois o Estado e o governo não tem
interesse em fazê-lo.
No manifesto sobre Educação
Escolar Indígena no Brasil – Por uma educação descolonial e
libertadora assim está expresso o grande desafio “Transformar a escola em
ferramenta de luta não é tarefa fácil. E para isso não basta mudar apenas sua
aparência, seus currículo, seus calendários. É preciso modificar toda sua
lógica, sua fundamentação, seus objetivos e essência, bem como os conteúdos e
práticas vivenciadas pelos alunos no cotidiano”
No documento final
exigem respeito e autonomia dos processos próprios e específicos das
comunidades “Queremos através deste documento dizer aos governantes, que as
nossas escolas indígenas sejam reconhecidas e respeitadas, obedecendo os
sistemas de educação próprio de cada povo, cada um com suas especificidades, no
seu modo de ser, viver, se organizar, de relacionar com o sagrado, reconhecendo
nossas bibliotecas que oferecem nossos livros práticos, as nossas disciplinas
tradicionais que se encontram dentro dos nossos territórios. Que as esferas federal,
estaduais e municipais reconheçam a autonomia das escolas indígenas.
Educação escolar
indígena descolonial e libertadora. Sonho ou pesadelo. Uma luta de quase cinco
décadas de desconstrução da escola do invasor. Da educação de súditos à
formação de guerreiros. Um longo caminho, em construção.
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